
Histerossalpingografia: Papel na Investigação da Infertilidade
Entenda como a histerossalpingografia avalia a permeabilidade tubária e cavidade uterina na investigação de infertilidade feminina.
# Histerossalpingografia: Papel na Investigação da Infertilidade
A histerossalpingografia (HSG) permanece como um dos pilares na investigação inicial da infertilidade feminina. Trata-se de um exame radiológico que avalia a cavidade uterina e a permeabilidade das tubas uterinas por meio da injeção de contraste iodado, fornecendo informações essenciais para o planejamento terapêutico do casal infértil.
Indicações Clínicas
A principal indicação da HSG é a avaliação da permeabilidade tubária em mulheres com dificuldade para engravidar. Estima-se que o fator tubário esteja presente em aproximadamente 25 a 35% dos casos de infertilidade feminina, segundo dados da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida.
Na prática: A formação continuada é essencial — novas técnicas, protocolos e guidelines são publicados constantemente, e o radiologista deve se manter atualizado.
Outras indicações incluem:
- Avaliação de malformações müllerianas (útero septado, bicorno, didelfo)
- Investigação pós-cirúrgica (reversão de laqueadura, miomectomia)
- Avaliação de sinéquias intrauterinas (síndrome de Asherman)
- Investigação de abortos de repetição
- Controle após procedimentos de embolização uterina
Técnica do Exame
O exame deve ser realizado entre o 6º e o 12º dia do ciclo menstrual, período em que o endométrio está fino (fase proliferativa inicial) e há menor risco de gestação. A paciente é posicionada em litotomia e, após antissepsia, realiza-se a cateterização do colo uterino.
O contraste iodado — hidrossolúvel na maioria dos serviços — é injetado lentamente sob controle fluoroscópico. Imagens são adquiridas durante o preenchimento da cavidade uterina, durante a progressão pelas tubas e após o extravasamento peritoneal (prova de Cotte positiva).
Preparo da paciente
- Jejum de 4 horas (precaução para reação ao contraste)
- Analgesia prévia com anti-inflamatório não esteroidal (ibuprofeno 600 mg, 1 hora antes)
- Antibioticoprofilaxia em pacientes com história de DIP (doxiciclina)
- Teste de gravidez negativo recente
Achados Normais
Na HSG normal, observa-se:
- Cavidade uterina com formato triangular regular
- Tubas uterinas com calibre uniforme e trajeto sinuoso
- Extravasamento livre de contraste na cavidade peritoneal bilateralmente
- Ausência de falhas de enchimento ou dilatações segmentares
Achados Patológicos
Obstrução tubária
A obstrução proximal manifesta-se como ausência de preenchimento da tuba desde o óstio uterino. Importante lembrar que o espasmo cornual pode simular obstrução — a injeção de glucagon ou a repetição do exame podem ser necessárias para diferenciação.
A obstrução distal apresenta-se como hidrossalpinge: dilatação da porção ampular com ausência de extravasamento peritoneal. O aspecto em "clava" é característico.
Alterações da cavidade uterina
- Pólipos endometriais: falhas de enchimento arredondadas, regulares
- Miomas submucosos: falhas de enchimento com ângulo obtuso em relação à parede
- Sinéquias: irregularidades lineares, falhas de enchimento fixas
- Septos uterinos: defeito de enchimento linear na linha média
Malformações müllerianas
A HSG permite sugerir o tipo de malformação, embora a ressonância magnética seja superior para a classificação definitiva. O útero septado apresenta dois "cornos" com ângulo intercornual inferior a 75 graus, enquanto o bicorno geralmente apresenta ângulo superior a 105 graus.
Limitações do Exame
A HSG apresenta limitações reconhecidas:
- Taxa de falso-positivo para obstrução proximal de até 15-20% (espasmo tubário)
- Não avalia aderências peritubárias
- Não identifica endometriose peritoneal
- Desconforto significativo para algumas pacientes
- Exposição à radiação ionizante (dose efetiva de aproximadamente 1-2 mSv)
Alternativas Modernas
Histerossonografia com contraste (HyCoSy)
A ultrassonografia com infusão de contraste (microbolhas ou soro fisiológico agitado) permite avaliar a permeabilidade tubária sem radiação ionizante. Estudos recentes mostram concordância acima de 80% com a HSG convencional para detecção de obstrução tubária.
Histerossonografia 3D (HyFoSy)
Utiliza espuma como meio de contraste e ultrassonografia tridimensional. Apresenta boa acurácia e menor desconforto comparativamente à HSG.
Cromoscopia laparoscópica
Permanece como padrão-ouro para avaliação tubária, pois permite visualização direta das tubas e do peritônio. Entretanto, por ser procedimento invasivo, é reservada para casos selecionados ou quando há indicação cirúrgica concomitante.
Efeito Terapêutico da HSG
Um aspecto relevante e frequentemente discutido é o possível efeito terapêutico da HSG. A passagem do contraste oleoso (lipiodol) pelas tubas pode ter efeito de "lavagem", removendo debris e muco. Revisões sistemáticas sugerem aumento nas taxas de gestação espontânea nos ciclos subsequentes à HSG com contraste oleoso, embora os mecanismos exatos permaneçam em debate.
Complicações
As complicações são infrequentes, mas incluem:
- Dor pélvica (comum, geralmente autolimitada)
- Reação vasovagal (1-2% dos casos)
- Infecção pélvica (menos de 1%, mais comum em pacientes com hidrossalpinge)
- Reação alérgica ao contraste iodado (rara)
- Perfuração uterina (excepcional)
Papel no Algoritmo de Investigação
Na prática contemporânea, a HSG permanece como exame de primeira linha na avaliação tubária, geralmente solicitada após anamnese, exames hormonais básicos e espermograma do parceiro. Sua acessibilidade, custo relativamente baixo e boa acurácia justificam sua posição no algoritmo diagnóstico.
Para pacientes com contraindicação ao contraste iodado ou preferência por métodos sem radiação, a HyCoSy representa alternativa válida, desde que realizada por profissional experiente.
Perguntas Frequentes
Quais são as principais contraindicações da ressonância magnética?
As contraindicações absolutas incluem implantes ferromagnéticos (marca-passo não condicional, clips de aneurisma cerebral antigos, fragmentos metálicos intraoculares). Contraindicações relativas incluem claustrofobia, implantes de segurança condicional e primeiro trimestre gestacional. O médico avalia caso a caso.
Por que a ressonância magnética é tão demorada?
A RM adquire sinais de diferentes tecidos usando múltiplas sequências (T1, T2, difusão, contraste), cada uma fornecendo informação complementar. A resolução espacial e o contraste tecidual superiores exigem tempo de aquisição maior que outros métodos. Protocolos focados podem reduzir o tempo quando apropriado.
A ressonância magnética usa radiação ionizante?
Não. A RM utiliza campos magnéticos e radiofrequência, sem qualquer exposição à radiação ionizante. Isso a torna particularmente adequada para pacientes pediátricos, gestantes (após primeiro trimestre, quando indicado) e exames seriados de seguimento, sempre a critério médico.
Considerações Finais
A histerossalpingografia continua sendo ferramenta valiosa na propedêutica da infertilidade. O radiologista deve conhecer a anatomia normal, os principais achados patológicos e as limitações do método para fornecer informações precisas ao médico assistente e contribuir para o manejo adequado do casal infértil.