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TC no Abdome Agudo: Achados Críticos que Todo Radiologista Deve Conhecer

TC no Abdome Agudo: Achados Críticos que Todo Radiologista Deve Conhecer

Tomografia no abdome agudo: achados de apendicite, diverticulite, obstrução intestinal e isquemia mesentérica.

Dra. Patrícia Alves10 de dezembro de 2025

# TC no Abdome Agudo: Achados Críticos que Todo Radiologista Deve Conhecer

A tomografia computadorizada (TC) é o exame de imagem de escolha na avaliação do abdome agudo, com exceção de situações específicas (gestantes, suspeita de colecistite). Sua capacidade de avaliar rapidamente toda a cavidade abdominal e identificar condições que exigem intervenção urgente a torna indispensável no pronto-socorro.

Protocolo no Abdome Agudo

Indicações para contraste endovenoso

A maioria dos cenários de abdome agudo se beneficia do uso de contraste iodado endovenoso. As fases adquiridas dependem da suspeita clínica:

Na prática: Cada caso clínico é uma oportunidade de aprendizado: correlacionar achados de imagem com apresentação clínica e desfecho fortalece o raciocínio diagnóstico.

  • Fase portal (70-80s): protocolo padrão para a maioria das indicações
  • Fase arterial (25-35s): suspeita de sangramento ativo ou isquemia mesentérica
  • Fase tardia (5-10min): útil para avaliação de extravasamento urinário

Contraste oral

Não é obrigatório para a maioria das indicações emergenciais. Retarda o exame e a TC com contraste EV isolado apresenta excelente acurácia para as principais causas de abdome agudo.

Apendicite Aguda

Achados clássicos

  • Apêndice com diâmetro superior a 6 mm (medido de parede externa a parede externa)
  • Realce parietal do apêndice inflamado
  • Densificação da gordura periapendicular (fat stranding)
  • Apendicolito (presente em 25-30% dos casos)
  • Espessamento do ceco adjacente

Complicações

  • Perfuração: defeito na parede, ar extraluminal, coleção periapendicular
  • Abscesso: coleção organizada com realce periférico
  • Flegmão: densificação difusa periapendicular sem coleção definida
  • Pileflebite: trombose da veia porta ou de seus ramos (complicação rara e grave)

Armadilhas

  • Apêndice retrocecal (pode ser difícil de identificar)
  • Apendicite de coto (pós-apendicectomia)
  • Diverticulite cecal simulando apendicite
  • Apêndice normal preenchido por conteúdo fecal (não confundir com apendicolito)

Diverticulite Aguda

Achados típicos

  • Espessamento segmentar do cólon (geralmente sigmoide)
  • Densificação da gordura pericólica
  • Divertículos associados
  • Espessamento fascial adjacente
  • Pequena quantidade de líquido livre regional

Classificação de Hinchey (modificada)

  • Ia: inflamação pericólica confinada (flegmão)
  • Ib: abscesso pericólico pequeno (<4 cm)
  • II: abscesso pélvico ou à distância
  • III: peritonite purulenta generalizada
  • IV: peritonite fecal

Complicações

  • Abscesso (indicação de drenagem percutânea se > 3-4 cm)
  • Fístula (colovesical, colovaginal, colocutânea)
  • Obstrução colônica
  • Trombose de veia mesentérica inferior
  • Perfuração livre com pneumoperitônio

Obstrução Intestinal

Achados de obstrução mecânica

  • Dilatação de alças a montante (delgado > 3 cm; cólon > 6 cm; ceco > 9 cm)
  • Zona de transição identificável (alça dilatada → alça colapsada)
  • Descompressão de alças a jusante
  • "Small bowel feces sign" (conteúdo fecaloide em delgado proximal à obstrução)

Causas mais frequentes

  • Bridas/aderências: causa mais comum em pacientes com cirurgia prévia; zona de transição sem massa identificável
  • Hérnia encarcerada: identificação de alça em orifício herniário (inguinal, femoral, incisional, interna)
  • Neoplasia: massa com estenose, especialmente em cólon
  • Intussuscepção: aspecto em "alvo" ou "rim" nos cortes axiais
  • Volvo: aspecto em "redemoinho" (whirl sign) dos vasos mesentéricos

Sinais de sofrimento de alça (estrangulamento)

Achados que indicam urgência cirúrgica:

  • Ausência de realce parietal (isquemia transmural)
  • Espessamento parietal com hipo-realce
  • Pneumatose intestinal (ar na parede)
  • Gás no sistema portal ou mesentérico
  • Mesentério hemorrágico (hiperdensidade espontânea da gordura)
  • Líquido livre inter-alças hemorrágico

Isquemia Mesentérica

Isquemia arterial aguda

  • Trombo ou êmbolo na artéria mesentérica superior (AMS)
  • Ausência de realce de alças no território afetado
  • Pneumatose intestinal
  • Gás portal-mesentérico
  • Espessamento ou adelgaçamento parietal segmentar
  • Dilatação de alças com conteúdo líquido

Isquemia venosa

  • Trombose da veia mesentérica superior
  • Edema mesentérico difuso ("misty mesentery")
  • Espessamento parietal com realce mucoso preservado (inicialmente)
  • Ascite

Isquemia não oclusiva

  • Sem trombo identificável
  • Vasoconstrição difusa
  • Hipoperfusão em contexto de baixo débito cardíaco
  • Diagnóstico frequentemente de exclusão

Outras Causas Críticas

Perfuração de víscera oca

  • Pneumoperitônio (ar livre)
  • Identificação do ponto de perfuração (descontinuidade parietal, ar adjacente)
  • Líquido livre com densidade heterogênea

Pancreatite aguda

  • Edema pancreático difuso ou focal
  • Densificação da gordura peripancreática
  • Coleções líquidas peripancreáticas
  • Áreas de necrose (ausência de realce)

Ruptura de aneurisma de aorta abdominal

  • Aneurisma com diâmetro geralmente > 5 cm
  • Hematoma retroperitoneal (hiperdensidade espontânea)
  • Sinal do "crescente" hiperdenso (sangue fresco na parede)
  • Extravasamento ativo de contraste

Comunicação de Achados Críticos

O radiologista tem obrigação ética e legal de comunicar achados que exigem intervenção imediata diretamente ao médico assistente, não apenas via laudo escrito. Exemplos de achados que exigem comunicação verbal imediata:

  • Isquemia mesentérica com sinais de sofrimento
  • Pneumoperitônio com sinais de perfuração
  • Sangramento ativo
  • Obstrução em alça fechada
  • Dissecção ou ruptura aórtica

Perguntas Frequentes

Qual exame de imagem é mais indicado no abdome agudo?

A escolha depende da apresentação clínica: ultrassom é primeira linha para dor em hipocôndrio direito e quadrante inferior direito. TC com contraste é o método de escolha para dor abdominal difusa, suspeita de obstrução ou perfuração. O médico define conforme o contexto clínico e a estabilidade do paciente.

A TC de abdome sempre precisa de contraste?

Não. Cálculos urinários são melhor avaliados sem contraste. Porém, para a maioria das indicações de abdome agudo (apendicite, diverticulite, obstrução, isquemia), o contraste venoso melhora significativamente a acurácia diagnóstica. O radiologista define o protocolo conforme a indicação clínica.

Quais achados de abdome agudo exigem comunicação imediata?

Achados que exigem comunicação urgente incluem: pneumoperitônio (perfuração), isquemia mesentérica, ruptura de aneurisma, torção de pedículo (ovário, testículo), obstrução em alça fechada e abscesso com sinais de sepse. O radiologista deve comunicar imediatamente ao médico responsável pelo paciente.

Considerações Finais

A TC no abdome agudo exige interpretação rápida e precisa em contexto de urgência. O radiologista deve ser capaz de identificar prontamente os achados críticos que indicam necessidade de intervenção cirúrgica imediata, diferenciá-los de condições manejáveis conservadoramente e comunicar efetivamente seus achados à equipe assistencial. O treinamento sistemático e a exposição a casos variados são fundamentais para essa competência.

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